Leia o prefácio de Redes e Ruas: mídias sociais e ativismo contemporâneo

por Claudio Luis de Camargo Penteado* e Rosemary Segurado**


A tradução do livro Redes e ruas: mídias sociais e ativismo contemporâneo, de Paolo Gerbaudo, professor do Departamento de Humanidades Digitais e diretor do Centro de Cultura Digital do King’s College em Londres, chega em um momento importante do debate em torno dos efeitos das mídias sociais sobre a democracia. Passados a euforia e o entusiasmo das potencialidades democráticas das mídias sociais que cercaram o começo desta década, percebe-se a necessidade de uma reflexão crítica, já presente nesta obra de Gerbaudo, quanto ao papel desses dispositivos nas mobilizações e disputas políticas de nossas sociedades cada vez mais digitalizadas.


Doutor em mídia e comunicação pelo Goldsmiths College (University of London), Paolo Gerbaudo tem como objeto de pesquisa o uso das mídias sociais pelo ativismo contemporâneo e, mais recentemente, incorpora em sua agenda a emergência do populismo pelo uso das redes sociais de internet e o surgimento dos partidos digitais na cena política. Por meio de diversas parcerias e interlocuções com pesquisadores e pesquisadoras do Brasil, inclusive com visitas ao país, Gerbaudo vem se consolidando como importante referência dentro dos estudos sobre movimentos sociais e cultura digital. Seu olhar crítico ao processo da entrada das tecnologias de informação e comunicação nas práticas políticas contemporâneas possibilita entender as transformações nas dinâmicas sociais, políticas e culturais sem cair nas armadilhas de um tecnodeterminismo ou de uma visão tecnofóbica, que caracterizaram o debate acadêmico do começo do século XXI.


As plataformas de redes sociais na internet ganharam um papel de destaque nas práticas políticas mundiais. No Brasil, importantes processos políticos foram influenciados (direta ou indiretamente) pelas mobilizações online. No rastro do ciclo de protestos como os da Primavera Árabe, que derrubaram o ditador Mubarak no Egito, do movimento dos indignados na Espanha e do Occupy Wall Street, todos retratados neste livro, o Brasil assistiu a uma grande mobilização popular e a protestos de rua em diversas cidades do país em junho de 2013, marcadas pelo uso das mídias sociais como instrumento de convocação das pessoas, como forma de denúncia da violência policial e como meio de produção de conteúdos alternativos à mídia tradicional. As manifestações de junho de 2013 no Brasil despertam até os dias atuais diversas leituras sobre as origens, as motivações e as transformações produzidas em âmbito nacional; contudo, há um consenso sobre a importância que as mídias sociais tiveram para mobilizar milhares de brasileiros e brasileiras que tomaram as ruas do país.


As redes sociais também foram empregadas nas mobilizações contra Dilma Rousseff nos anos 2015-2016, resultando no impeachment da presidenta eleita em 2014. No ambiente das plataformas digitais, formaram-se redes de ódio conservadoras e antipetistas, que, além de fazerem a convocação para as manifestações contra Dilma Rousseff, criaram um ecossistema de difusão de informações, desinformação e fake news que modificou a configuração do funcionamento do debate público, abrindo espaço para a ascensão de grupos e lideranças conservadoras, autoritárias e com grande capacidade de mobilização e influência digital.


Um dos resultados desse processo foi a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência do Brasil em 2018. Contrariando o receituário da ciência política que associa o sucesso eleitoral à quantidade de tempo disponível no horário gratuito de propaganda eleitoral (HGPE) e ao financiamento de campanha, Bolsonaro foi eleito apesar de ter tido menos tempo no HGPE e, oficialmente, realizado uma campanha com menos recursos do que os outros concorrentes, em razão do uso eficiente das mídias sociais. A campanha bolsonarista encontrou nas plataformas das redes sociais na internet um espaço para difusão, articulação e conexão de uma visão de mundo representada por valores conservadores da sociedade associada a setores reacionários do cristianismo, às pautas liberais na economia e ao discurso punitivista e autoritário em relação ao enfrentamento da violência e da corrupção no país.


Nesse sentido, a proposta de Gerbaudo de “entender o significado social das práticas midiáticas e das redes sociais em particular” contribui para o atual debate em torno das transformações das práticas políticas contemporâneas pelas mídias sociais, seja por meio do ativismo, seja no âmbito do debate público ou, até mesmo, pela influência que elas têm exercido em processos eleitorais. A obra também ajuda a desmistificar e superar o debate entre ciberotimistas e ciberpessimistas que marcou os primeiros estudos sobre as transformações da internet na vida social, econômica, política e cultural. A leitura qualitativa dos processos da revolução egípcia, dos indignados e do Occupy Wall Street permite identificar continuidades e descontinuidades na ação coletiva, assim como o fim da dicotomia entre virtual e real, ao ligar as práticas midiáticas dos ativistas às ações de ocupação do espaço público, sinalizando que não há mais separação entre o online e o offline e que ambos fazem parte do ativismo contemporâneo.


Os dados coletados por Gerbaudo, por meio de uma interpretação cultural e fenomenológica das práticas midiáticas “concretas”, apontam para resultados contrários aos do discurso “técnico-visionário” que transforma as mídias sociais em um “fetiche” da ação coletiva, no qual as plataformas de redes sociais são vistas como “armas” revolucionárias e que representam a possibilidade de uma nova organização social horizontal, sem a existência de líderes e centros de poder, como símbolos da expressão da ideologia californiana de Barbrook e Cameron (2018). Na perspectiva desses autores, o ativismo é reduzido à conexão de indivíduos (individualismo metodológico) que atuam de forma egoísta dentro das redes digitais, como uma expressão tecnológica do neoliberalismo da economia das redes. Conforme Gerbaudo argumenta, esse tipo de discurso reduz a ação coletiva ao uso estratégico das tecnologias digitais, por meio da personalização de frames de mobilização, e desconsidera os processos coletivos de construção de significados, identidades coletivas e narrativas compartilhadas constituídas e territorializadas nas ruas e nos acampamentos nas praças públicas.



Dilemas da horizontalidade e da liderança no ativismo contemporâneo


O debate em torno da horizontalidade e da ausência de liderança está presente nos movimentos sociais há pelo menos uma década e, em muitas situações, consome mais tempo sobre as formas organizativas do que as próprias pautas e agendas dos movimentos. Em algumas situações, o formato das redes é citado como garantia da horizontalidade e, nesse caso, ser horizontal e não ter uma liderança específica torna-se a parte mais importante do movimento, demonstrando um processo de essencialização em torno desse aspecto.


As entrevistas realizadas por Gerbaudo durante o processo de pesquisa demonstram essa contradição: o desejo de que todos assumam de forma igualitária o protagonismo das ações, embora os próprios ativistas reconheçam as dificuldades de se pôr em prática os encaminhamentos das ações discutidas nos fóruns e assembleias; é um desafio que acaba sendo assumido por um seleto grupo de amigos atuantes no movimento, criando o que Freeman (1972) denomina como novas elites informais.


As tentativas de criação de novas formas de participação configuram um aspecto que caracteriza os novos movimentos sociais. Trata-se de uma problematização fundamental a ser enfrentada. É preciso compreender que a organização não pode ser tomada como sinônimo de burocratização do movimento, mas como forma capaz de garantir que os espaços de discussão das estratégias e táticas se desdobrem em processos de mobilização. A crítica à ideologia do “horizontalismo” é importante para que se possa desenvolver uma análise conceitual que possibilite compreender as potencialidades e também os limites das formas de organização abertas e em rede (Haunss e Leach, 2009), como mostra o estudo de Gerbaudo. Essas formas têm a potencialidade de construir um processo participativo, inclusivo e transparente capaz de evitar os vícios dos movimentos tradicionais que incorrem recorrentemente em processos de burocratização. Por outro lado, é importante reconhecer que todo processo de mobilização social se constitui mediante relações assimétricas (Melucci, 1996a) que podem até expressar desequilíbrios entre os sujeitos da mobilização e os que são mobilizados.


Quanto à literatura de referência para esse debate, destacamos três autores fundamentais: Manuel Castells (1996; 2009), com a noção de “rede”, e Hardt e Negri (2000; 2005; 2009), com a “cultura de enxame”. Essas noções são importantes, mas insuficientes para se compreender a ação coletiva, justamente por não problematizarem a dispersão e o individualismo como aspectos constitutivos da sociedade contemporânea. Esse aspecto se mostra crucial à medida que é amplamente utilizado pela discursividade neoliberal, que aposta tanto na intensificação do individualismo quanto na dispersão dos indivíduos, os quais passam a ser vistos como empreendedores de si mesmos e, portanto, devem investir suas energias para o sucesso pessoal em vez de empregá-las no coletivo. Ao colocarmos essa questão no centro dos processos políticos contemporâneos, vemos que o enfrentamento dessa discursividade não se desenvolve simplesmente por atuarmos em rede, pelo contrário, as estratégias neoliberais também incorporaram as redes em suas dinâmicas, o que tem significado, principalmente do ponto de vista da produção, formas ainda mais preocupantes de precarização e de dispersão dos trabalhadores.


Castells é, sem dúvida, um dos grandes estudiosos sobre os usos que os movimentos sociais fazem das redes digitais, defendendo que estas são organizadas sem centralizações, promovendo o que o autor define como “autocomunicação de massa”, que seria a forma de garantir a ampliação de engajamento social e político autonomamente, livre dos processos de burocratização, e reforçando em alguma medida a ideia de que as redes são espaços que garantem a horizontalidade da ação política, capazes também de evitar o personalismo que, muitas vezes, está presente na ação das lideranças.


O caráter corporal da ação coletiva também é muito importante para a análise de Gerbaudo, sobretudo se observarmos que os protestos analisados ocorreram em espaços públicos considerados centrais em cada uma das respectivas localidades. A ocupação dos espaços públicos está presente nas reflexões de Hardt e Negri, embora não seja o objeto central dos autores. Eles entendem que os protestos iniciados no final de 2010 no Egito, e posteriormente na Espanha e nos Estados Unidos, apresentaram uma mudança na forma de organização das rebeldias em relação ao nomadismo de ciclos de protestos anteriores, e defendem que esses movimentos passaram a ser “sedentários”, à medida que utilizaram a tática de ocupação de espaços públicos centrais como forma de manifestar seu descontentamento. É nesse sentido que Hardt e Negri argumentam que a multidão é o sujeito revolucionário da contemporaneidade composto por uma multiplicidade irredutível, que ganha corpo a partir da produção de um bem comum.


O conceito de enxame, também recorrente na literatura de redes, é visto como a expressão dessa multidão que se recusa a ser reduzida a uma só identidade e tem como tática a apropriação dos espaços públicos para a produção do comum a partir da interação entre sujeitos. É nesse ponto que Gerbaudo chama a atenção para a necessidade de nos afastarmos da literatura clássica de movimentos sociais para que possamos compreender as especificidades das novas práticas sociais e políticas, lembrando que não necessariamente é pré-requisito a existência de uma identidade forte entre os ativistas para que eles atuem em uma luta comum. Assim, o autor se distancia das interpretações oferecidas por Castells, Hardt e Negri, que enfatizaram a ação coletiva como algo que “brota espontaneamente” e que prescinde da mediação e da articulação simbólica capaz de dar forma e guiar o movimento. É nesse ponto específico que Gerbaudo desenvolve um diálogo estreito com Ernesto Laclau (2005), que vê como aspecto fundamental para a organização dos movimentos sociais a necessidade de um movimento proativo para que se estabeleçam e se criem identidades profundas que possam ser convertidas em força de sustentação da ação coletiva; e com Chantal Mouffe (2018), que, em oposição ao conceito de multidão, afirma que a constituição do povo ocorre a partir de insatisfações e demandas sociais e políticas, sendo fundamental para os processos de resistência à pós-democracia. Trata-se de construir um povo para a luta pela hegemonia. Nesse sentido, o populismo de esquerda deve procurar recuperar e aprofundar a democracia, desenvolvendo uma estratégia para articular as demandas em uma vontade coletiva, o que para Mouffe significa “construir um ‘nós’, um ‘povo’” para confrontar as elites que são os verdadeiros adversários. Para que isso ocorra, é preciso criar uma cadeia de equivalências entre as diversas demandas dos trabalhadores, dos precarizados, das classes médias empobrecidas, de movimentos como LGBTQIA+, feminista e negro, entre outros. Para a autora, essa articulação é central na estratégia de radicalização da democracia e na construção de uma nova hegemonia.



Conexão redes, ruas e praças: da coreografia de assembleia aos acampamentos


Ao conectar as práticas midiáticas em redes sociais de internet e a ocupação de espaços públicos realizada pelos ativistas ao longo de 2011, no Egito, durante a Primavera Árabe, pelos indignados, na Espanha, e pelo Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, Gerbaudo introduz o conceito de “coreografia de assembleia” para estudar as mídias sociais na ação coletiva contemporânea.


Segundo o autor, a comunicação e a interação nas plataformas de redes sociais permitem a criação de espaços (locais) nos quais as pessoas podem se encontrar e compartilhar de forma coletiva significados, identidades e narrativas. Contrariando a interpretação da abordagem da ação conectiva (Bennett e Segerberg, 2014), que associa a mobilização pelas mídias sociais a um processo de personalização e individualização da participação política, o estudo apresentado neste livro indica a persistência da identidade como um elemento central para a mobilização. Gerbaudo mostra que as mídias sociais atuaram como fórum de encontros entre os jovens ativistas na construção simbólica de um espaço público (digital) que orientou a ocupação das ruas por pessoas altamente individualizadas.


Como espaço de interação e sociabilidade, principalmente entre jovens descontentes com as formas de representação política tradicionais, as mídias sociais auxiliaram em um processo de “condensação moral” que orientou não somente as ações e campanhas de mobilização online, mas também a construção de um “cenário e roteiro emocional” coletivo que se materializou pelas práticas coletivas e comunitárias nas ruas. Em diálogo com a teoria de Laclau (2005), Gerbaudo aponta que, nas coreografias de assembleia, se produziram, nos casos estudados, cadeias de equivalência de raiva e indignação e a construção discursiva de um povo, a partir da identidade e das emoções, condições necessárias para explicar a emergência de um ativismo que conecta redes e ruas.


A obra mostra que cada manifestação teve dinâmicas diferenciadas e relacionadas com suas culturas políticas e geografias urbanas locais. A interação entre os espaços digitais e físicos possibilitou a materialização de coreografias construídas nas mídias sociais, a partir da ocupação geográfica e estratégica das ruas e da constituição dos acampamentos e práticas coletivas e comunitárias offline. Essas ações permitiram que as pessoas pudessem recuperar os espaços públicos tradicionais (ruas e praças), esterilizados pelas práticas neoliberais de esvaziamento da política e do público em geral.


Na revolução iniciada em janeiro de 2011 no Egito, Gerbaudo argumenta que o Facebook foi a principal plataforma de coreografia de assembleia dos ativistas egípcios, tendo possibilitado a formação política e a construção de uma identidade coletiva da shabab-al-Facebook, a juventude egípcia cosmopolita conectada. O regime autoritário do ditador Mubarak havia impossibilitado que oposicionistas ocupassem o espaço público para a realização de protestos. O Facebook, portanto, atuou como um “oásis” no qual jovens de classe média desenvolveram uma cultura libertária de questionamento político e a construção de uma identidade compartilhada, identificando um “inimigo comum”: Hosni Mubarak e sua polícia. Não obstante, a revolução só se materializou quando conseguiu a adesão de classes mais baixas, mobilizadas pelas formas tradicionais de protestos com a realização de “marchas alimentadoras” em diversas regiões do Cairo, possibilitando a incorporação de novos segmentos ao acampamento da praça Tahrir, local que se tornou a principal “plataforma de coordenação do movimento revolucionário”.


Já o movimento dos indignados na Espanha (15-M), por sua vez, tendo lugar em um dos países da União Europeia mais afetados pela crise econômica de 2008, foi formado principalmente pela população jovem desempregada, tendo como característica primordial a rejeição a “velhas” identidades políticas de esquerda e direita em suas formas tradicionais de representação, através dos partidos e sindicatos. Essa mobilização se articulou em torno da defesa de uma “democracia 2.0”, na qual a participação política poderia ocorrer pelas plataformas de redes sociais. Assim como no Egito, as mídias sociais na Espanha também contribuíram para a formação de uma coreografia de assembleia, articulada na figura dos indignados, como resultado de um processo de transformação de sentimentos individuais de raiva e inconformismo em uma identidade comum de luta política solidária, que no caso espanhol foi representado pelo movimento Democracia Real Ya (DRY). Esse grupo político, já estabelecido no espaço online com campanhas contra as políticas de austeridade e corrupção, tornou-se o principal polo de atração de jovens não politizados, articulando o apelo do povo contra o sistema. As mídias sociais também desempenharam um papel motivacional de incentivar a saída da apatia e da passividade para que se pudesse expressar, nas ruas, a indignação popular contra instituições corruptas.


Diferentemente de como se deu no Egito, o Twitter teve um papel mais importante no ciclo de protestos na Espanha. No ambiente virtual do microblog, foi constituída uma rede de interação e mobilização pré-15-M entre ativistas, jornalistas, acadêmicos e apoiadores, que possibilitou um clima favorável de adesão aos protestos de 15 de maio de 2011, articulados em torno da hashtag 15M. A partir da ocupação das praças e da formação dos acampamentos, o foco do movimento se deslocou das redes para as ruas. Os acampamentos nas praças também permitiram uma reapropriação do espaço público, esterilizado até então pelas políticas urbanas contemporâneas como mera via de passagem. As dinâmicas comunitárias e de assembleia dos acampamentos reinventaram práticas tradicionais de participação coletiva, reunindo grupos difusos.


Por fim, o movimento Occupy Wall Street nos Estados Unidos seguiu um caminho diferente. Para Gerbaudo, o Occupy foi resultado de um processo confuso e bagunçado de mobilização nas redes, que só ganhou força a partir dos primeiros acampamentos em Wall Street, no Zuccotti Park. Aqui, ao contrário dos casos anteriores, as mídias sociais atuaram parcialmente na formação de uma coreografia de assembleia. O principal papel das redes sociais foi repercutir os eventos de ocupação, auxiliando na sustentação e na coordenação dos ativistas, e também na evocação de um sentimento de solidariedade entre os acampados e os milhares de apoiadores na internet. A conexão entre ruas e redes ocorreu pelo uso tático do Twitter na comunicação entre os ativistas e na cobertura das ações desenvolvidas nos acampamentos, principalmente da repressão policial contra os manifestantes, o que permitiu ao movimento ganhar apoio nas redes e cristalizar o movimento no Tumblr We Are the 99 Percent. Essa plataforma funcionou como ponto de encontro simbólico, de produção da cadeia de equivalências (condensação moral) que se articulou em torno de um povo representado por narrativas pessoais de pessoas comuns (99% de vítimas) lutando contra um sistema de produção de desigualdades e injustiças que beneficia apenas 1% de uma elite.



Para além do ativismo


Neste livro, Gerbaudo também contribui para o debate sobre a emergência de lideranças populistas em diversos países do mundo, tema que se incorpora em sua agenda de estudos posteriores (Gerbaudo, 2015; 2017; 2018a; 2018b). A popularização do acesso à internet por meio de aplicativos de redes sociais em smartphones produz uma grande mudança não só no ativismo contemporâneo, mas também no jogo político, institucional e não institucional, principalmente com a emergência de lideranças populistas, o que o autor vai chamar de populismo 2.0 (Gerbaudo, 2018a).


A entrada de milhões de usuários no fluxo informacional, assim como a constituição de uma rede sociotécnica alternativa de comunicação distribuída, altera os processos de dominação da democracia liberal constituídos em torno do controle informacional (de visibilidade e invisibilidade) realizado pelas empresas de mídia tradicional. Nessa nova configuração, grupos de extrema direita articulam por meio de diferentes recursos a formação de uma identidade conservadora e autoritária, alinhando uma narrativa compartilhada de “ameaças” aos cidadãos de bem (o usuário comum das redes sociais), como comunismo, destruição dos valores da família tradicional, corrupção, violência etc., em torno de lideranças populistas. Essas lideranças conseguem canalizar um discurso antissistema por meio do uso eficiente e estratégico das mídias sociais na mobilização de emoções.


A persistência da identidade, das lideranças, da importância das emoções, assim como de aspectos tecnopolíticos da comunicação em plataformas privadas de redes sociais na internet (que só recentemente foram incorporadas ao debate acadêmico), traz desafios para pesquisadores, analistas e interessados nas disputas políticas contemporâneas. As abordagens de comportamento eleitoral da ciência política, estruturadas em modelos econômicos de agregação de indivíduos racionais buscando maximizar seus ganhos, e a leitura da comunicação social da existência de uma esfera pública orientada para a deliberação racional, que teria a funcionalidade de excluir pontos de vistas “não racionais” e ideológicos do debate público (produção de um consenso em torno de uma racionalidade econômica), já não fazem sentido na atual configuração social da maioria das sociedades contemporâneas, nas quais o debate público ocorre nas (e pelas) plataformas de redes sociais mediante a mobilização de identidades e afetos, assim como o modelo excludente da democracia liberal não foi capaz de cumprir suas promessas de liberdade, igualdade e fraternidade.


As dinâmicas das redes digitais implodem o arranjo da produção de consenso da democracia liberal que bloqueava a entrada de lideranças populistas de direita e esquerda, assim como vozes de dissenso ao sistema neoliberal. O político, em sua natureza conflitiva (Mouffe, 2018), encontra nesse novo ecossistema de comunicação espaço para a eclosão de conflitos e de disputa hegemônica pela produção de sentidos e narrativas, expressos em grandes mobilizações populares (Primavera Árabe, indignados e Occupy Wall Street) e até em projetos autoritários de poder (Trump, Bolsonaro, Orbán, Erdoğan, entre outros).


O esforço da editora Funilaria de traduzir Redes e ruas ajudará a difundir as contribuições de Gerbaudo para a reflexão, bem como ajudará a estimular a realização de novos estudos, sobre a ação coletiva que conecta o digital das mídias sociais com as práticas e o repertório de lutas do ativismo dos movimentos sociais e coletivos contemporâneos.



* Claudio Luis de Camargo Penteado é professor da Universidade Federal do ABC. Mestre e Doutor em Ciências Sociais. Pesquisador do Laboratório de Tecnologias Livres da UFABC e do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC/SP.


** Rosemary Segurado é doutora em Ciências Sociais pela PUC/SP, pós-doutora em Comunicação e Política pela Universidade Rey Juan Carlos de Madrid. Docente do Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências Sociais pela PUCSP e da Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Pesquisadora do NEAMP (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC/SP).


Redes e Ruas: mídias sociais e ativismo contemporâneo

Escrito no calor do momento das manifestações ocorridas no ciclo de protestos dos anos 2010, a partir da observação direta do autor, este livro busca entender como as tecnologias digitais de informação e comunicação, especialmente as redes sociais, influenciaram as práticas de ação coletiva de movimentos e organizações sociais, ativistas e indivíduos conectados

em rede. Buscando escapar do determinismo tecnológico que muitas vezes impera em análises deste tipo, seja pelo tecno-otimismo ou pelo tecno-pessimismo, Paolo Gerbaudo olha atentamente para as práticas e ações comunicativas que se desenrolaram nas redes e nas ruas, indo na direção contrária daqueles que enxergaram nesse ciclo de protestos apenas manifestações espontâneas, construídas a partir de práticas horizontais e sem liderança. Formado politicamente pelos ideais colaborativos do movimento altermundista, o pesquisador italiano contribui com o debate sobre ações coletivas digitalmente mediadas ao identificar novos tipos de lideranças contemporâneas.


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